Documentação
Artigos
Liberdade do artista, dignidade do homem

Digo-o porque S. Josemaria era tão consciente do que era o Opus Dei, uma organização desorganizada, que rompia todos os moldes que pudessem espartilhar algum dos seus fiéis. Se quanto às questões opináveis não queria que houvesse uma escola própria do Opus Dei, antes desejava que se respeitasse a liberdade, tal como na investigação teológica, muito menos poderia haver uma corrente artística defendida pelo Opus Dei, ou uma arquitectura própria do Opus Dei. Cada artista poderia criar seguindo o caminho que mais conviesse ao seu modo de pensar e agir. A única coisa que interessava a S. Josemaria era que fosse feito com oração, com espírito de humildade, com desejo de serviço, com optimismo: que pudesse ser caminho para o encontro dos homens com Cristo.
Nos tempos em que decorreu a expansão do Opus Dei, a arquitectura não tinha um caminho claro. Depois do estilo internacional de funcionalidade e racionalidade extremas, com respeito pelos materiais e completo desprezo por qualquer adorno ou moldura superficial, lançou-se em direcção a um pós-modernismo – clara reacção àquela simplicidade – em que quis libertar-se do racionalismo, não regressando a uma ordem de estilo clássico, mas utilizando-o arbitrariamente, para superar também qualquer escravidão que o classicismo pudesse proporcionar. Mais tarde desembocou no desconstrutivismo, rompendo com a razão de ser da arquitectura de todos os tempos, que sempre tinha resultado da utilização dos materiais que iam marcando a forma e a evolução da arquitectura, desafiando a verticalidade da gravidade e rompendo com o ângulo recto e qualquer forma geométrica preestabelecida. Agora, através de um minimalismo, por vezes caro, mas lógico, parece que a arquitectura entrou por caminhos mais claros, simples e perenes.
Em todo este trajecto houve excessos arquitectónicos que, tal como nas outras artes, levaram a algumas obras efémeras, passageiras, em que algumas vezes parece ter prevalecido mais o desejo de ser original do que o desejo de ser consequente, procurar mais o aplauso do que o belo, e acabando por vezes por criar uma arquitectura superficial. Por isso, nos meus encontros com S. Josemaria – que não podia nem queria seguir os sobressaltos que a arte ia atravessando – disse-me ele que queria para Torreciudad soluções modernas mas que estivessem inspiradas em Aragão.
As tendências arquitectónicas daquele momento levavam-nos precisamente a tentar que a arquitectura racionalista e universal fosse menos universal e estivesse mais enraizada na terra; que um edifício fosse o resultado lógico do lugar onde se encontrava, mas não copiando ou mimetizando a arquitectura existente.
S. Josemaria tinha um grande sentido daquilo que é a construção e não queria arquitecturas efémeras, cuja manutenção fosse dispendiosa. Dizia-me que os materiais deveriam ser fortes e definitivos. Não criticava a arquitectura efémera, mas não a podia querer para um Santuário de Nossa Senhora, que tinha que durar séculos e que não devia causar gastos excessivos de manutenção. A sua beleza poderia preocupá-lo, mas nisso não podia influenciar. Como bom promotor preocupava-se com as pessoas que aí iriam viver e, por essa razão, com a funcionalidade daqueles edifícios.
Além disso, preocupava-se de que tudo estivesse pensado, que não houvesse improvisações. Quanto à urbanização exterior falou de boa iluminação, bebedouros com água natural, potável (que ficasse claro, acrescentava, que não se tratava de água milagrosa) e caixas de esmolas para manter tudo aquilo. Também falou de cartazes de sinalização, que fossem dignos, e todas as indicações feitas de modo positivo porque não lhe agradavam as proibições. Mencionou cestos para papéis, luzes com acendimento automático, altifalantes exteriores, e que na esplanada deveria haver uma cópia da imagem da Virgem de Torreciudad, mas de metal, para não se deteriorar por estar ao ar livre. Ao falar de que estivesse bem iluminada, mencionou que não tivesse luzes na coroa.
Sem querer, ampliou tudo. Admirava-se de que eu não tivesse projectado uma esplanada (ninguém mo tinha pedido), de que o Santuário fosse pequeno, que os confessionários fossem só dez ou doze. Dizia-me que ele não o veria, mas nós sim, que viriam pessoas de muitos países. Ao falar-lhe do Santuário, que se podia ampliar, não gostou que isso se fizesse por partes, preferia que se projectasse de forma definitiva.
Foi nos comentários que fez quanto ao presbitério do Santuário que S. Josemaria pôs maior carinho. Ao falar do retábulo, disse que tinha de ser um convite para rezar – contemplar Jesus, Deus e Homem, aproximava-o de Deus – e que, como uma aula de catecismo, todo o género de pessoas o entendesse. Aqui S. Josemaria sublinhava a diferença entre arte litúrgica e arte profana face à separação actual entre o artista e a sociedade.
A ideia de fazer um retábulo aragonês com o óculo eucarístico foi de S. Josemaria. Não lhe agradava fazer uma igreja grande dedicada à Virgem Maria, a quem ninguém queria mais do que ele, e pôr o Senhor num canto. Queria que o Senhor presidisse a toda a Igreja. E disse: “Faremos, com a nossa pobreza e com o amor de todos, um trono para o sacrário, rico e – acrescentou sublinhando-o – acompanhado, pois há-de presidir do alto do retábulo da Igreja a todas as actividades apostólicas que se realizarem, entre aqueles penhascos aragoneses, em honra de sua Mãe, para bem de todas as almas e ao serviço da Santa Igreja”.
Assim como me tinha falado constantemente de não fazer nada luxuoso, de não utilizar materiais caros e construir edifícios sóbrios, insistiu em que o altar não fosse mesquinho: na medida do possível, que fosse rico, principalmente agora que, se nos descuidamos, podem chegar-se a usar mesas de cozinha como altar. Não queria falar de arquitectura, mas daqiuio que levava no coração. Não podia marcar-nos pautas estéticas na arquitectura actual precisamente pela liberdade que tínhamos e isto quando no princípio tinha de fazer o Opus Dei – utilizando uma expressão de S. Josemaria - com quatro gatos pingados, que, embora entre eles houvesse algum bom arquitecto, poderiam deixar-lhe uns enormes mamarrachos, naquelas circunstâncias em que a arquitectura não sabia por onde havia de ir. Como se sabe, em qualquer país e em qualquer circunstância quem teria que o decidir seriam os grupos promotores que, como qualquer proprietário, não só arranjavam o dinheiro para os edifícios, mas eram também quem marcava a pauta do que queriam ou precisavam.
Como arquitecto andei por toda a Huesca procurando assimilar a sua arquitectura. Falei com o Padre, querendo assimilar todas as suas ideias; e, ao mesmo tempo, “defendi-me” como pude do grupo promotor, que era quem conseguia o dinheiro e podia exigir, enquanto procurava também secundar as suas intenções. E, no fim, fez-se Torreciudad.
Se quisesse resumir qual a influência da mensagem de S. Josemaria que mais pudesse ajudar um artista ou arquitecto, seria a de se sentir filho de Deus, participando da Sua obra criadora na sua actividade humana. É como se Deus quisesse necessitar da colaboração do artista para aperfeiçoar o mundo com a sua arte, acrescentando o seu contributo estético à obra da criação. E se tiver consciência desse querer do seu Pai-Deus, o artista não só participa da sua obra criadora mas também redentora. O artista é um instrumento de Deus, um colaborador seu, um cooperador cego se não tiver fé, mas que deve agir como se tivesse fé, não para que o admirem, mas para servir os outros. Mas se tiver fé, essa cooperação atinge uma quarta dimensão, porque não é só para servir os outros, mas para dar mais glória a Deus. Portanto, com a sua obra não deverá escandalizar, porque então esta não o levaria a Deus.
No artista deve predominar a capacidade de serviço, mais do que o orgulho. Não tem que procurar a sua auto-satisfação, a sua ambição ou a sua soberba, porque o artista, mais que ninguém, tem a tentação constante da serpente a Adão e a Eva (cf. Gen 3,5).
A obra de arte nas mãos do artista é como os bois ou carneiros que os israelitas sacrificavam a Deus. Eram animais sem defeito que o dono, a quem pertenciam, lhe oferecia. A obra de arte tem essa dignidade de poder ser oferecida a Deus. E assim o dizia S. Josemaria (Amigos de Deus, 55).
E essa obra de arte, além disso, deve aproximar os outros de Deus. Através dessa capacidade que Deus deu ao artista, na obra que sai das suas mãos deve transparecer o espírito de Cristo.
S. Josemaria, quando viu Torreciudad terminada, um mês antes da sua partida para o céu, enquanto descia comigo até à Ermida, depois de me dizer que tinha gostado, para que não me pudesse entrar a vaidade pelo que tinha feito, aproveitando a desordem e caos dos volumes dos edifícios, disse-me com bom humor que eu tinha atirado os tijolos e construído onde eles tinham caído.
H. D.Morell
Actas do Congresso "La grandeza de la vida corriente", Vol. XIII Creatividad artística, EDUSC, 2003
Português







Oração
RSS
FACEBOOK
YOUTUBE