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Josemaria Escrivá, homem de contrastes

Etiquetas: Livros, Opus Dei
Pilar Urbano, jornalista e escritora
Pilar Urbano, jornalista e escritora
Quando decidi lançar-me a escrever a biografia de Josemaria Escrivá (“O homem de Villa Tevere”, 1994), inquietava-me a pergunta interior sobre se haveria ou não “homem”; se, não dispondo da personagem ao vivo, teria de me confrontar com infindáveis arquivos de papel e testemunhos abstractos, sem cenário nem acção. Era esse o meu receio: enfrentar-me com um herói da virtude, muito elevado e sublime, mas sem carne nem osso.

Um protagonista de carne e osso

À medida que ia explorando, um episódio atrás de outro, deparava-me com um protagonista de carne e osso. Estava realmente perante um herói cristão; mas um herói sem epopeia nem auréola; um herói do quotidiano, do normal, do corrente, do “tão real, hoje, 2ª feira”. Um herói todo-o-terreno. A certa altura pensei até estar simplesmente perante um padre. Assim o dizia ele próprio ao Dr. Hruska, o seu dentista, quando ao cuidar dos dentes maltratados, lhe pedia: “Monsenhor, queixe-se, diga-me se o estou a magoar”: “Faça o que for preciso! Não se preocupe comigo, eu sou somente… um padre!”

Um padre sem paróquia, mas com freguesia em todo o planeta. Talvez um padre à moda antiga, com as devoções tradicionais dos nossos avós; mas tão adiantado no tempo que, quando expôs a sua doutrina no Vaticano, lhe disseram “vem com 100 anos de antecedência”. Um padre bem-humorado que chamava à sua batina “capa de guarda-chuva”: mas que todas as manhãs, quando se vestia, a beijava. Um sacerdote que, consciente da sua cidadania civil, exigia os seus direitos com o aprumo de quem cumpre os seus deveres. Um clérigo paradoxal que se definia como “anticlerical”… por instinto de amor à Igreja.

Ou santo ou obstáculo

Não precisei de partir nenhuma estátua para tocar a humanidade da personagem que tinha pela frente: um sacerdote que tanto estremecia ao consagrar o pão e o vinho, como ao receber as notícias da invasão soviética na Checoslováquia. Um homem que em certas ocasiões assinava as suas cartas como o pecador Josemaria e que, ao ler o jornal, chorava pelos pecados do mundo. Realmente, um bom pecador. Alguém que se sabia ferramenta descartável – mas ferramenta escolhida e utilizada por Deus – para realizar uma obra que o ultrapassava. Alguém colocado perante um profundo dilema: ou era santo, ou era um obstáculo para a sua missão. E, a partir daí, uma “determinação determinada” de que nada desviasse o seu impulso imparável: fazer o Opus Dei para servir a Igreja e ficar louco de amor por Deus. Era essa a minha personagem. Um santo. Um santo com sangue nas veias. Um homem: terra sagrada de misérias e de mistérios. Um eliminador de obstáculos. Um lutador em pé de guerra contra si próprio. Uma mistura espantosa de barro e de graça.

Os contrastes

Pois bem, a descoberta mais inesperada estava nos contrastes. Cada vez que levava para a minha secretária um episódio, uma frase, uma cena da vida de Escrivá, percebia que tinha diante de mim os terminais de fios condutores: havia ali uma carga de electricidade… as suas disposições, as suas virtudes, as suas atitudes vitais surgiam sempre num jogo de valores contrapostos que, longe de se neutralizarem, geravam uma tensão dinâmica, ou se enriqueciam entre si com gamas de matizes, cores, luzes e sombras. O Escrivá brioso e empreendedor era simultaneamente um Escrivá doente, cuja alma tinha de puxar pelo corpo ao fim do dia. O Escrivá alegre, brincalhão e com uma canção na ponta da língua, era também o Escrivá asceta, mortificado e jejuador. O Escrivá que vivia dias extenuantes de viagem sem um minuto de descanso, e para quem descansar significava “trabalhar noutra coisa”, era um Escrivá sem programa e sem relógio: “o meu programa está nas mãos de Deus”; “não preciso de relógio: depois de uma coisa, vem outra”; “não tenho tempo para pensar em mim”. O Escrivá que subia a um palco para pregar e cujo magnetismo atraía e arrastava multidões, era o mesmo Escrivá empenhado no seu próprio obscurecimento: “ocultar-me, isso é o que me compete: que só Jesus brilhe”.

Que não se contrapõem

Os contrastes que observei em Josemaria Escrivá não se contrapõem, antes pelo contrário: cada um deles realça o seu oposto e dá dele garantia. No plano moral, são afinal a pedra de toque do ourives: o jaspe que imprime um cunho no metal de boa qualidade – um “contraste” – como garantia da sua nobreza. Em Escrivá cada contraste autentica a boa lei de uma virtude. Assim, não há ausência de lágrimas, mas o sorriso abrindo caminho por entre as lágrimas, que dá testemunho de um sofrimento assumido por amor. Do mesmo modo que o que permite falar da pobreza procurada como virtude não é o ultrapassar uma situação de penúria, mas o gesto pródigo com aquele que precisa ainda mais; recusar o supérfluo ou privar-se do necessário, mesmo tendo-o à mão.

A novidade revolucionária do Opus Dei

Este não é o espaço próprio para relatar com vivacidade o manancial de episódios – estão atestados – em que se vê Escrivá, quer em público quer em privado, a encarnar uma infinidade de contrastes virtuosos; mas mencionarei alguns mais elucidativos:

A novidade revolucionária do Opus Dei, que não inventa nada: como toda a revolução, regressa às origens; e nessas origens redescobre de modo radical que todo o homem, pelo facto de ter nascido, está destinado à santidade; e que são os cristãos que têm a energia – o espírito – para estimular a sociedade civil a partir de dentro, estabelecendo a cidade de Deus na cidade dos homens. E é esse o sentido cabal da História.

A vida de Escrivá, como aposta de esperança. A sua fértil sementeira – também todo-o-terreno e ao acaso – com abundantíssima colheita de vocações para a Igreja. E a sua fatigante caminhada jurídica, encontrando o que não procura e não encontrando o que procura. Não encontra, mas sabe que existe. Viu, desde muito cedo, a fórmula correcta para o Opus Dei. Contudo, irão passar-se quarenta anos até que a Igreja lhe outorgue a fórmula. Durante esse tempo, Escrivá não cruza os braços. Empenha-se, de sol a sol, numa tarefa árdua, porque é necessário desbravar caminhos não andados há mais de dezassete séculos: as avenidas por onde os leigos, the ordinary people, consigam de verdade ser “gente santa, povo sacerdotal”. O esforço exige também um pulso firme: nem de longe deve parecer que entra em litígio com a Santa Sé. Contudo Escrivá, sendo desses construtores que não se limitam a pôr o telhado, mas que rematam a obra até à última pedra, morrerá sem ver a Obra erigida em Prelatura pessoal.

Pilar Urbano, Jornalista. Escritora. Autora de uma biografia de São Josemaria: O homem de Villa Tevere: Os anos romanos de Josemaría Escrivá, trad. port., São Paulo, Quadrante, 1996